Redefinir o Segundo

Crónicas 3 abril 2025  •  Tempo de Leitura: 4

Já existem relógios ópticos. Por isso, muitos começaram a sentir a necessidade de redefinir o segundo. O desafio é enorme, mas todos acham que vale a pena. Ao redefinir o segundo, os cientistas passam a ter medidas mais precisas e consideram que isso pode mudar toda a nossa visão do mundo. Não é claro qual é essa mudança. Porém, sabemos hoje que grandes laboratórios juntam-se para construir o melhor relógio óptico do mundo. Por que razão é tão importante construir um instrumento que mede com tanta precisão a fragmentação da nossa vida em segundos?
 
A demanda pelo "segundo de tempo" com enorme precisão implica que a excepcionalidade de um relógio óptico só pode ser avaliada por outro relógio óptico tão excepcional quanto o primeiro. Este é o sinal de como o tempo é uma realidade relacional.
 
Manter com precisão a noção de tempo seria um aspecto essencial para saciar o desejo de estarmos sincronizados. A questão que sinto termos diante de nós é se estamos conscientes de que nem todas as pessoas andam ou vivem ao mesmo ritmo. As incertezas na experiência do tempo não provêm de quão bem o medimos, mas das diferenças existentes no relógio interior que tem cada pessoa. Numa música tocada por uma orquestra, nem todos os instrumentos vão ao mesmo ritmo, mas estão sincronizados. Não é um metrónomo que marca o ritmo com o seu tic-tac-tic-tac, mas os olhares, os gestos, o entusiasmo recíproco e um profundo respeito pelo ritmo de cada um. A originalidade da peça tocada está no ajuste que todos fazem aos seus ritmos para irem ao encontro dos ritmos dos outros, mantendo o olhar atento à batuta do maestro.
 
Não há dúvida que a informação partilhada pelo mundo que depende de uma medição precisa de um segundo de tempo cronológico, beneficia de todo o esforço para redefinir o segundo, mas enquanto não aprendermos também a redefinir a experiência relacional que fazemos do tempo, dessincronizados, arriscamo-nos a viver uma arritmia que salienta mais o modo como o tempo fragmenta a vida, do que a sincroniza e harmoniza.
Enquanto fazia uma caminhada, à minha frente via uma senhora de idade acompanhada por alguém que estaria a tomar conta dela. Essa pessoa largou a idosa, apressadamente, para fazer algo que não entendi. Quando me aproximei, a cuidadora voltava e segurava de novo na mão daquela senhora. Foi nesse momento que ouvi a sua voz lenta a perguntar que tinha deitado os papéis fora. Ritmos diferentes, mas o que sobressaía daquele efémero episódio era a voz lenta daquela senhora com alguma idade. O tempo para ela dilatava-se na forma como pausadamente falava.
 
Os cientistas pretendem redefinir o segundo para medir melhor os tempos no pressuposto de que isso, um dia, irá reverter em favor da melhoria da vida das pessoas. Porém, fico a pensar o que seria de um mundo sem alguma incerteza temporal.
 
Talvez o problema não esteja em temer a incerteza do segundo, mas em não saber (ainda) como fazer de todas as incertezas, um modo de redefinir a nossa visão do mundo. Pois, onde há incertezas, existem várias possibilidades e liberdade de viver ritmos diferentes para aprendermos a sincronizar corações.
 

Aprende quando ensina na Universidade de Coimbra. Procurou aprender a saber aprender qualquer coisa quando fez o Doutoramento em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico. É membro do Movimento dos Focolares. Pai de 3 filhos, e curioso pelo cruzamento entre fé, ciência, tecnologia e sociedade. O último livro publicado é Tempo 3.0 - Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo e em filosofia, co-editou Ética Relacional: um caminho de sabedoria da Editora da Universidade Católica.
 
 
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